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Resíduos industriais: quem pagará a conta?

Enviado por: noticias

À medida que a sociedade cresce e se desenvolve, aumenta a quantidade de produtos utilizados e, consequentemente, a quantidade de resíduos gerados. São considerados resíduos os produtos ou materiais que ainda podem ter serventia, ou seja, que ainda podem ser reutilizados ou reciclados. Porém, quem gerou o resíduo pode não enxergar nele nenhum potencial de aproveitamento, momento a partir do qual o resíduo passa a ser considerado lixo e é encaminhado para o descarte. No caso do município de Sorocaba, o lixo é encaminhado para aterros sanitários, seja para resíduos domésticos ou para resíduos perigosos.

O setor industrial é responsável por grande parte dos resíduos gerados, sejam eles assemelhados aos domésticos, sejam eles considerados perigosos. Alguns resíduos gerados pelas indústrias são as aparas de plásticos, gases tóxicos, papéis, refugos metálicos e solventes. Estes resíduos também podem ser reciclados ou reutilizados, o que pode não ser considerado interessante para a indústria que o produz. Na opção pelo descarte, caso seja feito dentro das normas ambientais e de saúde pública, os resíduos ocuparão espaço em aterros. Caso não sejam descartados corretamente, poderão causar contaminações e danos à saúde da população. A destinação adequada destes resíduos é motivo crescente de preocupação de órgãos ambientais e de legislações que obrigam as empresas a se responsabilizarem por eles, desde sua classificação, tratamento, coleta, transporte e destinação final. Com o impacto da fiscalização vigente, os custos das empresas com a gestão destes resíduos têm aumentado rapidamente.

Como exemplo, podemos citar o problema da geração de resíduos pela indústria calçadista: estima-se que cada brasileiro consuma de 2 a 3 pares de calçados novos ao ano e que cada par de sapatos fabricado gera 220 gramas de resíduos. Dentre esses, um dos mais importantes talvez seja os de E.V.A., o polímero poli[(etileno)-co-(acetato de vinila)]. O EVA é utilizado, por exemplo, na confecção de brinquedos, enquanto que no segmento calçadista se apresenta principalmente na forma de placas expandidas para a fabricação de palmilhas e solados. Cerca de 58% do EVA consumido no país é destinado ao segmento calçadista, que descarta anualmente cerca de 5 mil toneladas do material. Estima-se que o corte de chapas expandidas gera em torno de 18% em massa de refugos. Estes resíduos ainda não possuem soluções consideradas adequadas de reaproveitamento ou reciclagem e por serem demasiadamente leves, representam grandes volumes ocupados em áreas de aterramento.

A grande dificuldade ambiental destes resíduos encontra-se no fato de que o processo convencional de reciclagem, baseado no derretimento material, não é possível, pois causa sua degradação. A reciclagem energética, ou seja, a queima para o aproveitamento da energia contida, ainda é uma solução custosa devida à baixíssima densidade dos resíduos e por poder gerar impactos ao meio ambiente. Assim, a reciclagem química surge como uma alternativa.

Basicamente, um polímero (como o EVA, PVC, PET ou polietileno), advém de derivados de petróleo numa reação de polimerização. A reciclagem química é uma reação de despolimerização, ou seja, a partir de um polímero é possível obter até os derivados de petróleo que o constituíram.

Uma pesquisa em desenvolvimento na Unesp de Sorocaba, com o apoio da indústria Braskem, visa desenvolver um método viável de reciclagem química de EVA que possibilite a volta do resíduo como matéria-prima do processo industrial no próprio segmento. A despolimerização deve ocorrer sob condições de reação com ozônio e o produto obtido será misturado com outro polímero, sendo a formulação da mistura otimizada visando aplicação em calçados.

A gestão adequada dos resíduos quase sempre implica em um custo elevado para as indústrias geradoras. Porém, soluções de reciclagem ou reutilização podem diminuir esses custos, e normalmente envolvem investimentos e pesquisa com retornos em prazos nem sempre curtos. Além da diminuição de custos com resíduos, os resultados desses investimentos e pesquisas podem contribuir para uma sociedade mais limpa e um planeta mais saudável, evitando que os custos, dessa vez ambientais e de saúde pública, se acumulem e sejam pagos pelas futuras gerações.

 Raquel Martins Montagnoli, Sabrina Moretto Darbello Prestes e Sandro Donnini Mancini

Raquel Martins Montagnoli é aluna de graduação em Engenharia Ambiental da Unesp-Sorocaba

Sabrina Moretto Darbello Prestes é doutoranda em Ciência e Tecnologia de Materiais da Unesp 

Sandro Donnini Mancini é professor da Unesp-Sorocaba



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